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Dom, 02.02.2014

Mais oportunidades, mais reconhecimento, mais respeito, sem perder a ternura

Thiara Reges - Em 28/02/2019

Acredito que as centenas de operárias que morreram queimadas em 1857, reivindicando por redução da jornada de trabalho e direito à licença-maternidade, e que 54 anos depois seriam homenageadas com a criação do Dia da Mulher, jamais imaginaram que em pleno século 21, enfrentando um desafio ainda maior: o de estar viva. Verdade seja dita: nunca se falou tanto em feminismo, empoderamento, igualdade de gêneros, lideranças femininas, e também, em feminicídio.
 
Dados da Comissão Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH), braço da Organização dos Estados Americanos – OEA, apontam que quatro mulheres foram mortas por dia no Brasil desde o início de 2019, e olha que o ano nem bem começou. A taxa chamou a atenção da OEA, que cobra do Estado brasileiro a implementação de estratégias de prevenção, bem como punição aos responsáveis.
 
Nos últimos anos o Brasil e outros 15 países da América Latina, região com os maiores índices de feminicídio no mundo, tem intensificado as ações de combate aos crimes contra mulher, inclusive com a introdução de leis que tratam especificamente sobre o tema. Aqui, as penas podem chegar a 30 anos de prisão para agressores condenados.
 
Apesar da Lei Maria da Penha ser avaliada como uma das mais completas no mundo neste quesito, muito ainda precisa ser feito na prática. Um levantamento da Ong Human Rights Watch aponta que em todo o país existem apenas 74 abrigos para receber vítimas de violência doméstica, o que é muito pouco em um universo populacional de mais de 200 milhões de habitantes. Além disso, em média, apenas uma em cada três mulheres agredidas fazem a denúncia, e é assustador imaginar que os números de violência e feminicídios podem ser ainda maiores. 
 
Maria, Ana, Isabel, Márcia...nomes de nossas amigas, mães, colegas de trabalho, mas também algumas das vítimas de feminicídio aqui na Bahia. Em 2018 foram registrados 70 casos, sendo 8 na capital e 62 na Região Metropolitana e interior do estado.
 
Mas felizmente, nem só de estatísticas ruins se faz o Dia Internacional da Mulher. Por exemplo: o número de deputadas federais eleitas aumentou 51% em relação a 2014, e de deputadas estaduais, o aumento foi de 35%; já somos mais de 24 milhões de mulheres empreendedoras no Brasil (dados da Rede Mulher Empreendedora); e desde 1901, o Prêmio Nobel já concedeu essa honraria à 51 mulheres.
 
Ao longo do último mês tive a oportunidade de conversar com diversas mulheres da nossa cidade sobre os desafios de ser mulher no século 21. Empresárias, médicas, políticas, mães, mulheres, que marcam seus nomes na história de Lauro de Freitas com exemplos de conquista, força e superação.
 
Adriana Ribeiro, médica.
Natural de Vitória da Conquista, veio para Lauro de Freitas a trabalho, exercendo a sua formação em medicina. Com o passar dos anos foi ficando mais próxima das pessoas até decidir abrir a sua própria clínica, dentro da especialidade de gastrologia. Hoje, com 46 anos e mais de 12 anos de exercício, é reconhecida por seus pacientes por sua postura leve, sensível e profissional.
“Sempre trabalhei focada em oferecer o melhor para o outro, de modo que nunca me incomodei com qualquer barreira que pudesse existir pelo fato de eu ser mulher. Se você ficar preocupada, acaba tirando o foco daquilo que de fato você deve fazer. Acho que as mulheres têm buscado ocupar mais espaço na sociedade, e cada vez menos o gênero é determinante. A valorização vem com o tempo, com a prova de seu profissionalismo. Ser mulher é algo divino, a maternidade é algo singular, somos muito sábias, e não devemos temer a nada.”
 
Ana Cleide, empresária.
Ana Cleide, 40 anos, é empresária há 19 anos, e há três se mudou em definitivo para Lauro de Freitas. Madrinha de dois projetos sociais (Projeto Crescer e Construindo o Amanhã), Ana Cleide investe em jovens talentos locais, gerando emprego e renda, como forma de retribuir para a cidade o carinho com o qual foi recebida.
“As mulheres têm ocupado cada vez mais espaço, mas o desafio é grande. Somos mães, trabalhamos, administramos a casa e a empresa. Algumas vezes senti um olhar diferente, uma resistência com fornecedor na hora de uma negociação, acham que somos frágeis, que não vamos conseguir. Tenho um filho e duas filhas, e a mensagem que sempre transmito é que devemos ser humildes e nunca cansar de adquirir conhecimento; é através dele que ocupamos nossos espaços, alcançamos os objetivos e nos fazemos respeitar”.
 
Andrea Maestri, empresária.
Andrea Maestri, 48 anos, é natural de Curitiba, mas a 19 anos é empresária e moradora de Lauro de Freitas.
“Quando cheguei em Lauro abri a minha empresa, a Andrea Maestri Hidroginástica. Após muitos desafios, cheguei no formato atual, e fico muito feliz em hoje ter um espaço que propicia saúde e bem estar para o público feminino, sobretudo porque a mulher que antes era somente dona de casa, acumulou mais uma função fora do lar exigindo dela a capacidade de gerir o trinômio: lar, família e trabalho. Muitas mulheres já passaram pela academia, e muitas amizades nasceram aqui.”
 
Ana Cristina Andrade, professora e empresária.
Ana Cristina, 60 anos, é professora há 16 anos, empresária há 34 anos, moradora de Lauro de Freitas há 36 anos. Foi a primeira mulher a presidir o Rotary Club Lauro de Freitas, na gestão 2009/2010, e é membro fundadora da Academia de Letras de Lauro de Freitas.
“Não gosto de vitimização. Acho que todos nós temos o poder de mudar a nossa história; não é porque a pessoa nasce, por exemplo, na favela, que ela não pode ser um médico. Temos que lutar. E a minha vida inteira me esforcei para chegar onde estou. Invisto em conhecimento, e penso que esse é um caminho que todos deveriam fazer, pois é assim que acabamos com a desigualdade. Mulheres e homens devem receber seus salários de acordo com a sua qualidade, e não pelo gênero; e me sinto totalmente apta para competir com qualquer homem no mercado de trabalho. Sou feminina e empoderada, me aceito e sou feliz como sou, sou batalhadora e sei me posicionar. E ser empoderada para mim é ser batalhadora, sinto orgulho quando vejo uma mulher que correu atrás, estudou, venceu na vida, tem seu dinheiro, pode viajar, pode fazer o que quiser. Para mim foi uma experiência muito boa o período que estive a frente do Rotary, na época era a única mulher em um grupo de cerca de 30 homens, e conseguimos realizar lindos projetos, um deles foi a Feira da Cidadania, que oferecia serviços essenciais para a comunidade; e na hora de botar a mão na massa e fazer acontecer eu estava lá, com minha calça jeans, no meio dos homens. Digo que a mulher não é mais que homem, e nem o contrário, somos complemento.
 
Mirela Macedo, deputada estadual.
Fisiorapeuta por formação, Mirela, 40 anos, veio para Lauro de Freitas em 2005 exercer a sua profissão. Em 2012 foi eleita vereadora do município, e desde então tem um trabalho ativo na vida política. Atualmente Mirela ocupa o cargo de deputada estadual.
“Ser mulher é uma luta diária. Vivemos em uma cultura machista, e no ambiente político isso fica bem claro. De uma forma geral os olhares são de que nós não pertencemos ao cenário político, mas, nós mulheres, temos que saber conduzir com muita inteligência e sabedoria, e demonstrar cada vez mais a nossa importância na sociedade. Estamos ocupando nosso espaço, mas ainda falta muito para chegar ao desejado. Independentemente do gênero, eu acredito que qualquer pessoa pode ocupar qualquer espaço, e é muito importante que isso seja trabalhado na educação, em casa e nas escolas, com lições de respeito social”.
 
Mirian Martinez, vereadora.
Natural do Piauí, 58 anos, casada e mãe de três filhos. Em 1986, Mirian escolheu Lauro de Freitas com cidade para acolher sua família e foi ali que diante do desemprego, ao lado do seu marido, abriu as primeiras bancas de revistas e livraria do município. Ocupa desde 2016 uma cadeira na Câmara de Vereadores de Lauro de Freitas.
“Mesmo nos século 21, mulher em papel de liderança ainda é uma questão que chama atenção e exige de nós posicionamentos muitas vezes difíceis. Ocupar esse espaço é sobretudo uma responsabilidade imensa levando em consideração que exercemos uma representatividade para outras mulheres que nos veem como exemplo a ser seguido. Na prática os desafios são os mesmos que outras mulheres enfrentam na sociedade diariamente, somando a isso as outras cobranças em função do papel que exercemos. Situações de discriminação acontecem no cotidiano. Não só na minha vida como na de todas as outras mulheres. O tempo todo precisamos provar que somos capazes de exercer determinadas funções ou que conseguimos fazer coisas que a sociedade acredita que apenas os homens conseguem.”
 
Tânia Regina, artesã.
Nascida no Recôncavo, Tânia chega em Lauro de Freitas em dezembro de 1996, e aqui permanece fazendo sua arte. Ela é artesã, e sua matériaprima é a cabaça. É a atual presidente da Associação de Artesãos de Lauro de Freitas, onde cerca 99% dos membros são mulheres.
“Um dos maiores desafios para nós, mulheres, é o da sobrevivência, é uma conquista a cada dia. Assim como a maioria das mulheres do século 21, mantenho meu comprometimento diário com o meu trabalho, mas também cuido da minha casa. Desafios são constantes na vida da mulher que faz escolhas, que tem consciência do que ela quer e que vai a luta. Sinto que temos mais resistência, mais força em nos expressar, estamos seguras em nossas atividades diárias. Quando somos representantes de uma categoria não estamos sozinhas. Representamos vozes e vezes de muitas mulheres. As mulheres que se propõem a liderar são mulheres desafiadoras e corajosas. Parabéns para todas nós, mulheres!”.
 
Zizette Balbino, advogada, empresária e bisavó.
Zizette, 86 anos, é filha do ex-governador da Bahia, Antônio Balbino (1954-1959). A princípio vinha para Lauro de Freitas apenas para veranear, mas há cerca de 30 anos é moradora da cidade. Em 2016 Zizette completou 50 anos de formação acadêmica, em Direito, e se recorda que eram apenas sete mulheres em um universo de mais de 100 homens.
“Tive a felicidade de conviver muito com a minha avó, que me deu noções básicas de estudos, e minha mãe, que meu deu sobretudo o senso de organização e o saber se comportar nas diversas ocasiões. Hoje tenho duas filhas, seis netas, duas bisnetas, e todas são mulheres fortes, de opinião e que sabem se impor. Eu, por exemplo, não hesito em dizer o que penso. As mulheres não devem ter medo de nada; tem que ter certeza daquilo que fazem, pois a condição humana de nascer mulher não as enfraquecem; ser uma pessoa forte, digna e que se imponha. Não existe diferença entre mulher e homem; o que existe é a diferença entre corretos e incorretos. Agora, a mulher tem um algo mais que é a doçura e o carinho, que os homens têm mais dificuldade em demonstrar. Ser mulher é um privilégio. Sejamos todas nós mulheres de força, mostrando que somos feitas para vencer, sempre pedindo aos céus, que Maria, o Sacrário de Jesus, esteja na nossa frente e conduza os nossos passos.”
 
Adalgisa Rolim, professora e empresária.
Mãe e empresária, Adalgisa, 56 anos, fundou há 28 anos a escola de Ballet Adalgisa Rolim, que já formou bailarinos para importantes academias mundiais, a exemplo do Ballet Bolshoi.
“Comemorar o Dia da Mulher reforça a nossa importância na sociedade, os nossos múltiplos papéis e a nossa capacidade de harmonizá-los com nossa vida pessoal. Seja em qualquer classe social, vemos a mulher que concilia um trabalho externo, com o trabalho de cuidar da casa e criar filhos. Percebem-se mudanças neste panorama, onde vê-se a participação dos homens na vida doméstica e no cotidiano dos seus filhos. Há mudanças significativas no cenário desde o final do século passado e neste que estamos vivendo. Isso é possível por todo processo histórico-cultural que acompanha a evolução das mulheres no mercado de trabalho e na sociedade. Bom termos essas conquistas. Bom termos acreditado que podíamos alcançar novos patamares. Resiliência e perseverança são qualidades inerentes à mulher na atualidade e, com toda certeza, também serão qualidades que farão parte da geração das que estão chegando neste século 21.”
 
Irmã Carol Oliveira, líder religiosa. 
Natural de Miradouro (MG), quinta filha de dez irmãos; foi educada na fé católica e muito cedo deu início à sua vida religiosa e missionária na catequese e nos grupos de jovens de sua paróquia. Consagrada e membro da Fraternidade das Missionárias do Evangelho, hoje se dedica à paróquia de São João Evangelista, em Vilas do Atlântico, já tendo passado também pelas paróquias de Santo Amaro de Ipitanga, Santo Antônio (Portão), Nossa Senhora Aparecida (Itinga) e Santo Agostinho (Areia Branca). Cantora e compositora, Irmã Carol gravou 12 CD´s e mais de 400 canções inéditas.
“Cada vez mais, o Dia Internacional da Mulher é um momento de refletir sobre os desafios e progressos realizados, chamar para a mudança e celebrar atos de coragem e determinação de tantas mulheres, que têm desempenhado um papel extraordinário na história de suas vidas e da sociedade. São muitos os desafios que a mulher vem enfrentando no novo milênio. Um mundo novo e totalmente diferente nas relações familiares, no mercado de trabalho e até na missão da Igreja. Estamos diante de novos modelos, padrões e valores que exigem mais sensibilidade nas abordagens frente aos conceitos atuais. As mulheres estão rapidamente ganhando espaço em todos os campos, e é imprescindível que se pense nelas ao desenhar políticas públicas, produtos e serviços que facilitem essa marcha inexorável rumo ao futuro, que será feminino, como demonstram as estatísticas.”
 
Luciana Dumiense Dias, bancária.
Gerente de agência bancária, mãe e esposa. A princípio Luciana, 44 anos, tinha resistência em morar em Lauro de Freitas, por conta da distância dos serviços em Salvador. Mas hoje, nem em sonho cogita a possibilidade de sair: “Aqui consegui reunir meus hobbies, meus restaurantes preferidos, meus amigos, meu trabalho e família. Adotei Lauro de Freitas como minha cidade e já se vão 15 anos”.
“Assumo um papel de gestão na empresa onde trabalho, e como todas as mulheres, os desafios estão em sermos profissional e construírmos uma boa carreira, e fico muito feliz pois consegui isso. A empresa onde trabalho incentiva o empoderamento, valoriza o profissional, independente do gênero. Mas sei que isso não é a realidade nacional. Me sinto realmente privilegiada por conseguir viver isso. Para se ter uma ideia, minhas chefias imediatas são mulheres que construíram suas carreira de sucesso, e torcemos para que isso se estenda para várias empresas e deixe de ser um tabu. Sabemos que ainda temos muito espaço para ocupar, cenas de discriminação, violência e feminicídio ainda são muito comuns. Mas a voz da mulher hoje é mais forte do que ontem, conseguimos provocar o debate, e a esperança é que isso um dia acabe. Quanto mulher, me sinto realizada e desafiada, não havendo nada que me faça parar por conta do meu gênero.”
 
Mameto Lúcia, líder religiosa do Terreiro São Jorge Filho da Goméia.
Sucessora herdeira de Mãe Mirinha de Portão, descendente de João da Goméia, respeitado e considerado o rei do candomblé em Lauro de Freitas, Mameto Lúcia, 53 anos, é hoje uma líder religiosa muito respeitada, não apenas em sua comunidade. Nascida no Rio de Janeiro, desde menina frequentava Lauro de Freitas, passando as férias escolares com a sua avó, no terreiro.
“Infelizmente existem dois contextos, a luta da mulher e a luta da mulher de cor. O candomblé talvez seja o único espaço onde a mulher assume naturalmente um papel de protagonista no contexto de liderança religiosa. Mas são várias as lutas, e de uma forma geral dizem que matamos um leão por dia; eu acho que matamos leões, tigres, matamos várias coisas para poder verdadeiramente conquistar. Agora a mulher, com esse dom de prover a vida, de ser mãe, ela não desiste; na verdade assume um papel muito importante dentro da sociedade, lutamos para fazer um mundo melhor para aqueles que amamos. E estamos derrubando barreiras e conquistando nosso espaço, seja no nível intelectual, seja na política, seja na espiritualidade. É difícil saber o que desperta tanta maldade no ser humano ao ponto dele ser capaz de tirar a vida de outro. O que percebemos é que o fato da mulher não ser mais submissa como foi em outras épocas incomoda muito; que a falta de entendimento de muitos homens de que a mulher é capaz de tudo para defender seus filhos, e que possui uma grande força interior, também incomoda. Quando você pega esses fatos e coloca no Brasil, um país com tanta impunidade, infelizmente os números de feminicídio só tendem a aumentar. Mas nós mulheres, juntas, unidas, somos como uma manada de elefantes, e vamos incomodar muito mais.”

 

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