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Dom, 02.02.2014

HORTAS URBANAS: Um cantinho de natureza na garagem de casa

Thiara Reges - Em 30/05/2019

Quando você chega na casa de Marcelo Domingos, 44 anos, não vê de imediato nada de diferente: trata-se de um condomínio de villages como tantos outros em sua vizinhança, no bairro de Stella Mares. Mas se ele te convidar para conhecer a garagem, se prepare para esquecer que você está no caos urbano de uma cidade.
FOTO: A garagem de Marcelo possui mais de 50 espécies de hortaliças, frutas e leguminosas.
 
Nos espaços livres da garagem, Marcelo cultiva os mais diversos tipos de ervas, hortaliças e frutas, que além de serem usadas na alimentação da casa, contribuem com o clima e trazem o verde para dentro das cidades.
 
Tudo começou há cerca de 13 anos, plantando ervas como manjericão e cidreira, usadas tanto na culinária quanto no preparo de chás. “Sempre gostei de cozinhar, e achava fantástico preparar uma massa e ter o manjericão ali fresquinho para usar”, conta.
 
O primeiro espaço que ele ocupou foi um canteiro que ficava em frente a sua casa, plantando diretamente na terra ou em vasos. Mas há cerca de quatro anos ele se mudou para outra casa, no mesmo condomínio. Para sua alegria, Vilma, a nova moradora, adotou o espaço, e deu a sua personalidade: lindas plantas ornamentais e flores, que somadas ao barulho da água da fonte, garantem um ar de recanto natural. “Confesso que gosto mais de plantas que possam ser usadas na alimentação. Mas o que Vilma fez aqui ficou fantástico”, frisa Marcelo.
 
A vizinha, Vilma, deu um ar de recanto natural ao ambiente, com plantas ornamentais e flores
 
No condomínio em que ele mora, são ao todo 48 casas. “O início foi complicado. Há oito anos atrás tentei implantar uma horta vertical, utilizando os muros, o que rendeu até reunião de condomínio. A grande preocupação dos outros moradores era acabar com a estética, o padrão do muro que era branco chapiscado. Mas tudo é uma questão de diálogo. Se o mundo todo já aceita essa realidade, porque nós não? O muro pode ser de qualquer cor, pode ter vida, e conseguimos demonstrar que o lado poente, que já tinha adotado uma área verde, ficou muito mais agradável e fresco”, destaca. Hoje, além de Marcelo, já tem mais cinco pessoas que cultivam em suas garagens e sacadas, com direito a troca de mudas e experiências entre os vizinhos. E o condomínio já está ficando pequeno. Na faixa de areia, entre a Avenida Mãe Stella de Oxóssi e o Parque das Dunas, Marcelo plantou frutas, hortaliças e algumas PANCs - Plantas Alimentícias Não Convencionais.
 
APRENDER PLANTANDO
Formado em Turismo e Administração Hoteleira, Marcelo foi pegando cada vez mais o gosto por cultivar em sua garagem e encontrou na Internet uma forte aliada. “Com o Youtube posso dizer que faço um curso todos os dias. E de repente você está fazendo algumas coisas até de forma intuitiva. Ninguém me disse para plantar várias espécies diferentes no mesmo vaso, que isso daria certo. Depois é que fui ler e conhecer sobre o conceito de agrofloresta, que trata justamente de conciliar a agricultura e as florestas”, destaca.
 
E a natureza é sábia, vai mostrando alguns caminhos. Marcelo conta que no início ficava chateado quando via alguém tirando um ramo ou umas folhas, mas com o tempo percebeu que quanto mais se tira, mais a natureza dá. “Entendi que essa era a função da planta, e quanto mais você tira mais ela se renova. Desapeguei! Hoje, quando as plantas estão carregadas, faço pequenos maços e vou distribuindo na casa dos vizinhos. E isso vale também para as frutas”.
 
Além dos cursos, Marcelo também usa a Internet para se conectar com pessoas que tenham o mesmo hobbie, além de conhecer novas espécies. Em sua horta podemos encontrar cinco espécies de maracujá, sendo quatro doces; quatro espécies de manjericão e de milho; seis espécies de pimenta; três tipos de tomates. Para a salada de fruta são pelo menos 15 frutíferas, dentre elas a mini melancia, que é do tamanho de uma goiaba e pesa cerca de 100g.
FOTO: Mini melância, com cerca de 100g e o tamanho de uma goiaba
 
Plantadas, na garagem ou nas áreas livres do condomínio, já são mais de 50 espécies diferentes entre frutíferas, hortaliças, leguminosas, ervas e PANCs.
 
“Um dos meus amigos, chefe Yuri, tem um restaurante em Itapuã. Praticamente tudo que é servido lá ele busca no quintal de casa, de hortaliças, temperos, até às proteínas, como peixes e aves. E isso é massa, primeiro porque você percebe que não está só no mundo, que você não é uma lagarta. Segundo, porque quem planta quer compartilhar, e juntos queremos promover um momento onde as pessoas possam trocar mudas e experiências’’, conta.
 
UMA NOVA FORMA DE COMER
Depois de 13 anos cultivando em casa, Marcelo passou a ter um olhar mais criterioso para a alimentação. Além de gostar de cozinhar e experimentar novos sabores, ele conseguiu redefinir seu critério de qualidade. “Não vejo mais uma fruta com uma aparência não muito bonita como uma fruta não saborosa; também não acredito em um alface que vem com as folhas 100% verdes ou aqueles tomates de meio quilo cada. Você de certa forma fica mais seleto, e aprende que as frutas menores é que tem mais sabor”, conta.
 
Outro ponto que ficou muito claro é o uso de pesticidas e agrotóxicos. “Hoje vejo em minha horta uma planta com uma folha feia, mas não tenho coragem de colocar um defensivo químico, porque eu vou comer aquilo. E na produção em grande escala esse cuidado não existe. Meu pé de pinha, com meio metro, produz seis pinhas a cada seis meses. O mesmo pé de pinha, produzindo em larga escala, vai produzir seis caixas no mesmo período. Mas sei que não é isso que quero. Lá tem o defensivo agrícola, e o meu não”, destaca.
 
A PLANTA É ÓTIMA PSICÓLOGA
Em todos os contatos que tive com Marcelo, achei ele uma pessoa extremamente paciente, mas ele conta que nem sempre foi assim. Esperar, por menor que fosse o período de tempo, era torturante, e ele associa sua mudança de comportamento ao convívio com as plantas. “A horta me trouxe benefícios para além do consumo. Hoje sou uma pessoa mais paciente. Antigamente esperar um mês por qualquer coisa era algo impossível. ‘Como assim essa planta só vai dar fruto de novo daqui há um ano?’. Com as plantas eu aprendi que o tempo é para ser aproveitado, e não para pedirmos que ele passe logo. Hoje me permito ver o dia, e sei que enquanto uma planta demora um ano para produzir, tem outras que vão produzir neste intervalo, e tem plantas que todos os dias tem algo novo para me mostrar”, conta.
 
“Acho também que já peguei uma sociedade com a mentalidade mais aberta. Pense há 20 anos atrás um homem que tem como hobbie cultivar uma horta caseira? Logo a sua sexualidade seria questionada. Não tenho ninguém que me aponte o dedo de forma pejorativa, muito pelo contrário, recebo elogios e muitos amigos já entraram nesta onda e estão plantando em casa”.
 
ACREDITE: É POSSÍVEL!
Depois de tantos anos cultivando sua horta, Marcelo afirma com veemência que a falta de áreas de terra não é desculpa para não plantar. Em sua garagem, ele usa todos os recipientes possíveis, de vasos que ele mesmo compra, a garrafões de chopp, ou até um vaso sanitário sem uso.
FOTO: Ressignificando os objetos: vaso sanitário virou um vaso para acomodar o jambu
 
“O primeiro passo para plantar é enxergar que é possível. Faça uma experiência em sua casa: sabe a cebolinha que você comprou no mercado? Depois de usar, pegue aquele talo que sobra, e coloque em um copo com água sobre a sua pia. No outro dia já tem um broto. Depois de cinco ou seis dias você já terá cebolinha para consumo. Então quando uma pessoa diz que mora em apartamento e não tem espaço é porque não está vendo as possibilidades”.
 
Outra dica de Marcelo é fazer o bom uso da Internet, buscando tutoriais e se conectando com outras pessoas. “Se você quiser plantar você consegue, seja no banheiro, seja no batente da janela, na varanda. Comece pelas hortaliças, por exemplo, que são plantas de fácil cultivo e esteticamente deixam o ambiente com aspecto bem bonito. Você só precisa saber o que plantar naquele local, e a Internet pode ajudar muito. Tem muito tutorial sobre o assunto, e nas redes sociais não é difícil encontrar pessoas que possuem hortas em casa e são super abertos a compartilhar conhecimento”.
 
“Gosto de inserir as plantas na vida das pessoas. Tenho hoje um berçário enorme e faço questão que as pessoas saiam de minha casa carregando alguma muda ou semente”. Eu saí de lá com quatro.

 

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