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O cinema da Base Aérea e a mangueira assombrada...

MÁRCIO WESLEY, Especial para a Vilas Magazine - Em 02/08/2019

Ano de 1989. Durante as férias de verão, a galera solta e afim de aventuras, mas isso não era problema pra gente, a cidade tinha infinitas oportunidades de diversão: torneios de futebol, gincanas, festinhas, paqueras e praia. O clima era de euforia. Mas assistir um filme em um cinema era um lance luxuoso. O mais próximo ficava no Shopping Iguatemi, que para mim e minha galera era coisa de “gente rica”, como dizíamos, para “mauricinhos e patricinhas”.
 
Aqui tínhamos o Cine Teatro, no centro da cidade, que até hoje é gerido pelo Governo do Estado, entretanto, só exibia filmes brasileiros, sendo que a maioria não era para nossa idade, mas bem que eu queria assistir, principalmente as pornochanchadas. Tinha um colega que era pipoqueiro do cine, ele assistia os filmes escondido e depois nos contava, com detalhes. Meu sonho era assistir uma pornochanchada (rsrsrs).
 
Uma das alternativas era o cinema da Base Aérea de Salvador, que de vez em quando, abria os portões para os nativos e filhos de militares que moravam em Lauro de Freitas e região. Naquele cinema tive a oportunidade de assistir ‘E.T’; ‘Indiana Jones – Os caçadores da Arca Perdida’ e ‘De Volta para o Futuro’. Estávamos na fervura das videolocadoras e dos videocassetes, que eram equipamentos caríssimos – existia até consórcio para adquirir. As televisões com poucos canais, cinco ou seis no máximo. Não existia TV por assinatura.
 
Certo dia, meus pais, que eram servidores da Base Aérea, avisaram que teríamos cinema. Oba! Vou convidar os amigos, os mais chegados e os menos bagunceiros, pois não queria arrumar problemas com os milicos – o lance da ditadura ainda assombrava as nossas cabeças, o extremo respeito, misturado com o medo viviam impregnados em todos, inclusive nas crianças e jovens.
 
No horário marcado fomos até o portão de entrada da Base. Como de costume, fomos recepcionados por soldados com roupas camufladas, alguns com pistolas na cintura, outros com metralhadoras. Nos informaram que um ônibus viria nos buscar e levar até o cinema, que ficava há uns dois quilômetros. Deu tudo certinho, assistimos o filme “De volta para o Futuro”, naquele telão com som encorpado. O cinema era antigo com cadeiras de madeira desconfortáveis, sem pipoca ou lanchinho (risos), mas valia muito a pena estarmos ali.
 
Na saída alguém perguntou: “Cadê o ônibus?”. Um dos militares respondeu: “quem mora em Lauro de Freitas vai a pé, o ônibus vai levar as pessoas que moram em Itapuã e São Cristóvão”. Imediatamente pensei: zorra, estamos ferrados! Teríamos que passar pela velha mangueira assombrada. Diziam os colegas que durante a noite, ao redor da antiga mangueira, almas de militares assombravam quem passava por lá. Outros falavam que eram de pilotos que morreram em acidentes aéreos e que apareciam andando por ali. Imagine o frio na barriga?
 
Quando nos aproximamos da bendita árvore, um gritou: “Corre que eu vi alguma coisa ali”. Misericórdia. Foi dada a largada de uma prova de 100 metros rasos, correria total. Com o coração ao ponto de explodir, chegamos ao portão. Ufa... Os soldados que estavam de plantão até se assustaram com a correria e reclamaram: “desse jeito vocês vão passar a noite aqui” (risos).
 
Mas o pior estava por vir. O medo cria situações inimagináveis. Em nossa frente estava o velho cemitério da Igreja da Matriz, outra ‘casca dura’ para enfrentarmos. Nova correria, dessa vez com gritaria pelas ruas, misturado com medo e gargalhadas. Minha corrida só acabou quando cheguei na porta de casa, com um palmo de língua pra fora.
 
Márcio Wesley é jornalista e músico, nascido e criado em Lauro de Freitas.
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