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Casa Telucama: 40 anos estudando a bruxaria

Thiara Reges - Em 03/10/2019

A cerimônia Osthara, que celebra a chegada da primavera, foi realizada em 21 de setembro
 
Uma velha, bem feinha e enrugada, nariguda e com uma verruga enorme na ponta, que pratica magia negra e sai sempre voando na vassoura. Com certeza você já leu um livro ou assistiu a um filme com um personagem que se encaixa perfeitamente nesta descrição. Mas sugiro que você limpe a sua mente antes de ler esse texto, pois a bruxaria é bem diferente do universo desenhado nos filmes de ‘faz de conta’.
 
Relatos de bruxaria, feitiços e magia, são encontrados desde os primeiros séculos de nossa era, mas é, sem dúvida, nos séculos 14 e 15, com o crescimento do cristianismo, que o termo fica marcado, de forma dolorosa, na história, através da Inquisição, período em que milhares de pessoas, principalmente mulheres, foram torturadas, linchadas e queimadas vivas.
 
Entre as vítimas desse ataque estava o povo celta, um povo muito antigo, précristão, de grande sabedoria ancestral, que se revelava sobretudo através das artes e do fácil manuseio dos metais, politeístas, com divindades representadas nos elementos da natureza e vida animal. Viviam em tribos, espalhados por todo território europeu, o que dificultava a defesa contra outros povos, a exemplo do Império Romano.
 
“Foi um período de guerras sangrentas. A Inquisição matou mais pessoas que as duas grandes guerras mundiais juntas. Foram mais de 300 anos de mortandade absurda, fruto de total ignorância de saber que gerou uma infinidade de mitos que atinge o povo celta naquilo que nos é mais sagrado, as crianças e os idosos. E infelizmente esses mitos misóginos, se mantém até hoje, sobretudo nas Américas”, destaca Graça Azevedo, 71 anos, professora aposentada de História da Arte, artista plástica e terapeuta holística, além de Senhora Telucama, Suma Sacerdotisa do Templo Casa Telucama.
 
Localizada no bairro de Ipitanga, Salvador e colada com Lauro de Freitas, a aldeia existe há mais de 40 anos, dedicando-se ao fortalecimento da escola tradicional de bruxaria celta/ibérica, da qual pertenciam os ancestrais de Graça, a exemplo de suas avós e bisavós.
 
DEVOÇÃO AO UNIVERSO
No português arcaico bruxaria significa sabedoria, e a busca por conhecimento é um dos princípios da tradição celta-ibérica, que segundo documentos e também história oral, existe há mais de 300 anos. “Não se pode falar sobre algo sem conhecer, então, dentro do princípio da bruxaria nós buscamos o aprofundamento de valores tradicionais, étnicos, raciais, culturais”, frisa Graça.
 
Politeístas e matrifocal, os bruxos e bruxas reverenciam várias divindades ligadas à natureza, tomando sempre por base o tempo, que é o senhor da vida de todos os seres vivos. “Somos devotos da terra, viemos dela e para ela voltamos. E quem rege tudo isso é o tempo, que é nosso Deus. O que faz uma bruxa de verdade, honrada, com dignidade e lucidez, é o seu exemplo de vida. A sociedade se perdeu, sobretudo do conceito de cidadania. Um bruxo não deixa comida no prato e não come antes que todos forem servidos; ele respeita o seu vizinho, independente de credo ou religião. Buscamos conhecer as leis que regem o universo, a religião é apenas uma consequência”.
 
Como toda a base da religião está na natureza, as celebrações se baseiam no calendário lunar. “Nosso calendário segue as estações do ano: no inverno nós morremos com o deus Sol, e renascemos na primavera; a passagem do verão para o outono é a maturidade, a certeza do que se quer na vida; no outono nos preparamos para a colheita, pois nos recolhemos no inverno, e esperamos a próxima estação, pois a nossa vida é cíclica”, conta.
Caminhando pela aldeia, um sítio de cerca de quatro mil metros quadrados próximo a orla de Ipitanga, percebemos a presença de arte e fé, através de pinturas e esculturas de deuses e deusas, além de símbolos associados à religião como gatos, vassouras, caldeirões e cajados.
 
Um cuidado que Graça tem é de manter as tradições tais como seus ancestrais. “O Samhain (banquete para os ancestrais), por exemplo, tem muitas comidas gostosas, comidas que nossos ancestrais gostavam e faziam. Faço a mesma receita de bacalhau de dona Chica, minha avó. O povo celta criou a cerveja, então nosso banquete é composto de pães, tortas, vinho e cerveja, isso faz parte de nossa tradição”, destaca.
 
No dia 21 de setembro aconteceu a festa da primavera, Osthara, quando a aldeia foi aberta para receber alguns convidados, como os familiares e amigos dos colegiados.
 
Outro momento em que a casa recebe os amigos é para os encontros do grupo Djalma Ramos de idosos carentes. “Esse é um trabalho que realizo desde quando vim morar aqui. Pessoas idosas de toda a cidade estão cadastrados para receber as doações. Em agosto fizemos a entrega de agasalhos e em dezembro teremos uma grande festa, com presentes e doações”, conta.
 
Pioneira em Lauro de Freitas, Graça foi uma das primeiras professoras do Colégio Nobel, hoje Apoio, e comprou o sítio, onde construiu a aldeia, quando tudo era mato. Agora, com mais de 40 anos fortalecendo a tradição celta-ibérica no Brasil, ela começou o trabalho de resgate em países onde a tradição estava praticamente extinta, como Espanha, Alemanha, Portugal, Áustria e Inglaterra.
 
COVENS, AS ESCOLAS DE FORMAÇÃO
Qualquer pessoa pode ser um bruxo ou uma bruxa, desde que a sua alma seja desperta para isso, explica Graça, e cada tradição estabelece seus critérios. Na Casa Telucama, por exemplo, todos os interessados em ingressar no coven, a colégio de formação Ponto de Mutação, devem ser maiores de 18 anos, que sejam interessados no conhecimento e estarem em harmonia com a família. Mas antes, passam por entrevistas com psicólogas e pedagogas.
 
O coven, Colégio Ponto de Mutação, é o único da tradição celta/ibérica no Brasil e funciona dentro da aldeia. Tratase de uma universidade livre de saberes, que tem por objetivo formar sacerdotes, pessoas voltadas para o acolhimento do ser humano, dentro de sua proposta de reconhecer e se conhecer perante as leis que regem o universo.
 
Para ser um bruxo ou bruxa é necessário de nove a 14 anos de estudos, e os três primeiros são os mais intensos. “Nos primeiros três anos são passados conhecimentos acerca da história da humanidade no planeta, desde a era paleolítica até os dias de hoje, passando por todos os continentes e descobrindo a origem das religiões, práticas de autoconhecimento e sociabilização entre as diversidades. Só entendemos o mundo entendendo as diversidades”, frisa Graça.
 
A partir do quarto ano avança-se para a parte prática, a alquimia e o herbalismo. “É a benzedeira, a rezadeira, que aprende sobre as folhas e tudo que diz respeito a cultura de pé de fogão. Isso é magia”.
 
Do sétimo ano em diante o bruxo torna-se um orientador de caminhos, e galga os passos até se tornar um sacerdote ou sacerdotisa. “Durante todo esse processos fazemos várias viagens, vamos à Bretanha (noroeste da França), Irlanda, toda a faixa ibérica, buscar o conhecimento em nossas origens”, ressalta.
 
“O mistério está presente em todas as religiões e é isso que nos mantém. Na bruxaria só passamos os mistérios quando existe perfeito amor e perfeita confiança, ou seja, precisamos de tempo, o postulante precisa estar preparado. Não se enche um iniciante de conhecimentos ancestrais pois ele não está preparado para isso”, diz.
 
UMA MENTIRA CONTADA MUITAS VEZES VIRA MITO
Há milhares de anos quando os celtas descobriram as lavouras, o manejo de plantar e depois colher ficou sob responsabilidade das mulheres, visto que os homens saiam para caçar. No hemisfério norte plantava-se muito trigo, o que atraia a presença dos corvos na tentativa de comer os grãos. As mulheres então saiam correndo, com as vassouras nas mãos, para espantar os pássaros. É daí que nasce o mito e se torna a lenda de que as bruxas voam em vassouras.
 
Outro mito muito comum fala sobre a da devoção das bruxas ao demônio. Na verdade o animal mais forte da aldeia, o bode que dava mais crias, era reverenciado, e quando morria, muitas vezes até para alimentar a própria comunidade, seu chifre era guardado e se fazia uma espécie de chapéu. Nas grandes celebrações, esse adorno era usado como forma de agradecer ao animal, e é daí que surge mais uma lenda.
 
E por que as abóboras com cara de monstros, tão famosas no Halloween? Para começo de conversa é importante destacar que os bruxos não celebram o Halloween, que é na verdade uma data comercial. Essa cultura nasceu da celebração dos ancestrais, Samhaim, que acontece na transição do outono para o inverno, no hemisfério norte é no final de outubro, e aqui, no hemisfério sul, acontece no mês de maio.
 
O banquete do Samhaim acontecia na maior aldeia, e para que todos tivessem fácil acesso, o caminho era iluminado com lanternas feitas de abóboras, fruto muito farto nesta época do ano. Aproveitava-se a parte interna, muitas vezes para fazer tortas, e a casca era furada e dentro colocava-se uma vela. Vale destacar que eram lanternas simples, não tinham isso de fazer carinha de monstro.
 
Mitos como esses ajudaram a marginalizar a religião, a tal ponto que ainda hoje não é possível se quantificar os praticantes de bruxaria. Na Casa Telucama, são 28 sacerdotes e mais de 90 bruxos em formação na universidade livre de saberes. “Muitas vezes as pessoas se espantam: ‘fulano é meu médico, meu professor, e eu não sabia que ele é bruxo’. Grande parte do nosso colegiado é formado por professores, psicólogos e médicos, mas você não vai ver um bruxo ser anunciado por aí. Nossos ancestrais, muito sabiamente, nos ensinaram que o discurso não leva a nada. Uma bruxa só fala em último caso, que é para saber se defender”, frisa.
 
Vertentes como a Wicca, a bruxaria moderna, vem crescendo fortemente, mas Graça destaca que parte dessa busca é apenas por modismo. “Feliz ou infelizmente a bruxaria virou moda, e isso se deve a busca do ser humano em se reconectar; é a busca pelo humano despertado para a existência: quem eu sou e o que estou fazendo aqui? E é preciso que seja dito que existir é diferente de viver. Quando você nasce você está vivo, mas existir requer consciência, e essa é a busca de todo bruxo, a consciência de existir, que é alcançada através das artes, da ciência e da religião”.
 
“Acontece que ser um bruxo de verdade requer dedicação, muito estudo, você não encontra um verdadeiro bruxo ou bruxa, de formação sacerdotal, que não tenha um princípio didático. Por exemplo, se fala muito em efeitos mágicos, alquimia, isso nada mais é do que um conhecimento avançado de física e química”, destaca.
 
“Nossa maior luta hoje é para desmistificar todos esse mitos e mostrar que a bruxaria é algo muito mais amplo. A bruxaria está presente na vida das pessoas, que muitas vezes usam os nossos símbolos em casa e nem sabem que usam. Durante muito tempo não se podia falar de bruxaria pois não existiam leis que nos protegesse, hoje tem, e eu botei minha cara no quarador. Já estou em uma idade que posso fazer isso”, diz.
 
BRUXAS: LINDAS MULHERES FORTES GUERREIRAS
Já reparou que os homens bruxos são descritos como grandes sábios, que tinham a confiança do rei, sendo para este um conselheiro, enquanto as bruxas são mulheres feias com verrugas no nariz? Sexista, esse é mais um conceito errado que está associado à bruxaria. Na verdade, apesar de não existir separação de gênero, as mulheres sempre tiveram papel de destaque.
 
“Quando os celtas descobriram a lavoura tinham medo de arar a terra pois acreditavam estar machucando, e a terra é sagrada pois dá a vida. E esse mesmo princípio de sagrado é associado à figura da mulher. Não é à toa que as grandes deusas tinham busto e abdômen avantajados, simbolizando a sua fecundidade. Aqui trabalhamos muito esse resgate feminino; o homem é o resultado da mulher que lhe criou”, frisa. 
 
Como parte desse processo, uma das tradições seguidas na aldeia diz respeito a um momento muito importante para as mulheres, quando precisam deixar seus filhos para, por exemplo, voltar ao trabalho. “As mulheres celtas, depois de paridas, deixavam as crianças para serem criadas pelas anciãs, e iam para a guerra carregando uma boneca feita com as roupas dos bêbe. Ainda hoje seguimos essa tradição, adequada à atualidade, onde a guerra é o mercado de trabalho, é a faculdade, são todos os afazeres da vida moderna sendo mãe. Cada uma faz a sua boneca ou boneco, a depender da criança, como um rito de passagem”, conta. 
 
Sobre as bruxas narigudas e com verrugas, Graça ri. “As mulheres bruxas são lindas, nós nos cuidamos muito, somos verdadeiras guerreiras celtas, Valkirias”.

 

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