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História das Ganhadeiras de Itapuã inspira projeto pedagógico do Centro de Educação Djalma Ramos

Redação Vilas Magazine - Em 01/11/2019

A felicidade como experiência da busca identitária de crianças negras. Esta é a essência do Centro Municipal de Educação Infantil Dr. Djalma Ramos (CMEI) para desenvolver projetos pedagógicos na unidade escolar. Na manhã do dia 18 de outubro, em Vida Nova, o Centro recebeu a visita de mulheres do grupo As Ganhadeiras de Itapuã, que conheceram as salas de aula e outros espaços que retratam suas histórias.
 
Neste ano, o corpo docente do Djalma Ramos desenvolve um projeto intitulado “Um Amor Chamado... As Ganhadeiras”. O trabalho feito com crianças de zero a cinco anos promove, ao longo do ano letivo, atividades com narrativas das histórias de resistência e ancestralidade, por meio de uma concepção de educação decolonial e antirracista, com o intuito de aproximar os pequenos estudantes das personalidades que compõem o grupo Ganhadeiras de Itapuã, formado por  mulheres.
 
Segundo a coordenadora pedagógica do CMEI, Fátima Santos, a ideia não é somente trabalhar a perspectiva antirracista, inclusive porque o ensino de cultura e história afro e indígena já está no currículo da rede municipal de Educação de Lauro de Freitas. “A partir desse projeto, as crianças têm produzido escrevivências que se referem a obra das Ganhadeiras de Itapuã. Elas fortalecem as marcas identitária como elementos explicativos de suas raízes”, afirma.
 
O Projeto contribui na formação dos alunos de forma lúdica para o resgate e enriquecimento da cultura afro-brasileira na contemporaneidade. As salas de aulas do Djalma Ramos foram ornamentadas na perspectiva da identidade territorial, da presença de mulheres negras e das questões de gênero, da afetividade e ancestralidade. Um espaço da unidade foi produzido para ser o museu das Ganhadeiras de Itapuã, com imagens, textos e artefatos que contam a história viva dessas mulheres.
 
No olhar das Ganhadeiras, a emoção foi transmitida por lágrimas de alegria, ao conheceram cada detalhe da decoração na unidade escolar em homenagem ao grupo. “Assim que botei o pé aqui já me emocionei. É um sentimento grande que vem de dentro. As professoras são muito caprichosas e com isso as crianças vão crescer sabendo o que é uma ganhadeira. Este projeto já superou todos os trabalhos que já participamos. Estou orgulhosa e grata”, descreveu a ganhadeira Tereza Conceição.
 
O sentimento de valorização ainda continuou com o grupo de Itapuã quando estudantes do Djalma Ramos fizeram apresentações. O grupo do Reino Wakanda, composto por crianças de cinco anos (G5), referenciaram a cor do cabelo com a negritude e história das ganhadeiras. O Quilombo do Quingoma (G4) retratou a resistência do trabalho de lavagem de roupas. Com uma música do Ilê Aiyê, o Quilombo dos Palmares (G3) ressaltou a itinerância de pertencimento da beleza da mulher negra. No Centro de Educação, as salas dos grupos de alunos recebem um nome de acordo com a temática do projeto anual.
 
Para Maria Dias, presidente da Associação das Ganhadeiras de Itapuã, a unidade escolar superou suas expectativas. “É uma felicidade ver crianças tão pequenas envolvidas em um projeto que resgata parte da história da Bahia. As professoras, para mim também são ganhadeiras, porque trabalham com amor para ganhar o seu dinheiro, são maravilhosas com esse projeto”, destacou.
 
GANHADEIRAS
As Ganhadeiras de Itapuã relatam suas experiências de vida através do canto e samba. Elas representam a própria história contemporânea e de outras mulheres do século 19 que construíram a economia do país por meio do trabalho de vendas de água, coco, acarajé entre outros produtos, além do ganho da lavagem de roupas, para a compra de cartas de alforria na época. Atualmente o grupo é composto por 45 pessoas de várias gerações e será tema do samba-enredo da escola Unidos do Viradouro no Carnaval do Rio de Janeiro de 2020.
 
Maria Pinheiro, pesquisadora da Presença e Participação das Mulheres no Samba da USP, destaca que o projeto trata a civilidade e o protagonismo da mulher negra no universo da cultura popular. “A história das ganhadeiras traz para dentro da escola uma riqueza cultural, no sentido da música e dança, da culinária e vestimentas. Esta escola é muito referenciada em outros estados, principalmente São Paulo, por sua atuação dentro de sua perspectiva antirracista” comentou sobre o projeto pedagógico do Djalma Ramos.
 
TRAJETÓRIA E PRÊMIOS
O Centro Municipal de Educação Infantil Dr. Djalma Ramos iniciou em 2013 o desenvolvimento de projetos que valorizam a diversidade, o respeito à diferença e o direito de ser e existir de crianças. Após trabalhar a história do sambista Riachão, em 2014, a unidade escolar passou a produzir projetos somente com personalidades femininas negras. Mariene de Castro, Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus, já foram homenageadas.
 
Foi a partir da construção de projetos que ressaltam o patrimônio civilizatório afro-brasileiro que o Djalma Ramos adquiriu notoriedade. Em 2014, o Centro ganhou o prêmio “Escola: Lugar de Brincadeira, Cultura e Diversidade” concedido pela Universidade Federal do Ceará. Em 2015, o 16º Prêmio Arte na Escola Cidadã reconheceu o projeto “Dr. Djalma Ramos e Seu Amor por Riachão” como vencedor.
 
Com o Projeto “Mariene: A Flor que Desabrochou da Nossa Gente”, a unidade escolar foi campeã em 2015, do prêmio Professores do Brasil. Também é reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC) como um espaço educacional que tem como base político-pedagógica a inovação e criatividade. Em 2016, o Centro foi vencedor estadual do Concurso de Vídeo Pesquisar e Conhecer para Combater o Aedes Aegypti (MEC). Em 2018 a unidade foi premiada nacionalmente pelo projeto “Meu Cabelo, Minha Raiz”.
 
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