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Desastre ambiental: o óleo ainda não acabou

Thiara Reges - Em 29/07/2020

Manchas de petróleo, que em 2019 atingiram grande parte do litoral do Nordeste e Sudeste do Brasil, voltam a aparecer nas praias da Bahia
 
Um desastre ambiental sem precedentes na história: desde agosto do ano passado a faixa litorânea brasileira, do Maranhão até o Rio de Janeiro, tem suas praias tomadas por manchas de óleo, provenientes de um derramamento de petróleo cru, até hoje de origem desconhecida e identificados os responsáveis.
 
Segundo balanço apresentado pelo Ibama no início deste ano, mais de mil localidades foram afetadas, não sendo possível mensurar o tamanho do estrago causado, principalmente à vida marinha.
Lamentavelmente essa história ainda não acabou: desde o final de junho, novas manchas de óleo foram identificadas no litoral do Nordeste, inclusive em Salvador e praias do litoral norte.
 
As praias de Piatã e Jaguaribe, em Salvador, foram as primeiras a registrar a presença das novas manchas na Bahia, durante o mês de junho. Mas em julho, novos registros ocorreram nas praias da Pituba e Rio Vermelho, em Salvador; Vilas do Atlântico, em Lauro de Freitas; Interlagos, Arembepe e Barra do Jacuípe, em Camaçari; e Praia do Forte, em Mata de São João.
 
“Desde o início de julho foram identificadas manchas de até 10 cm de diâmetro em diversas praias da nossa região. Mas não temos informações consistentes quanto a quantidade de óleo, até porque o material não está sendo recolhido em sua totalidade”, destaca Arthur Sehbe, representante e fundador do grupo Guardiões do Litoral.
 
Em nota divulgada pela Marinha, em 18 de julho, a instituição informa que através do Grupo de Acompanhamento e Avaliação (GAA), composto também pelo IBAMA e Agência Nacional de Petróleo (ANP), foram recolhidos mais de 5 mil toneladas de óleo e resíduos oleosos, entre o Maranhão e o Rio de Janeiro, entre setembro de 2019 e fevereiro deste ano, e que o material foi devidamente destinado, observando os protocolos ambientais. Sobre os fragmentos encontrados este ano, cerca de 100 kg foram encaminhados para análise, e estima-se que somente 30% sejam efetivamente óleo relacionado ao derramamento do ano passado.
 
RECORRÊNCIA
“Quando soube do reaparecimento das manchas de petróleo em Jaguaribe, no início de junho, fiquei angustiado até confirmar a informação”, conta Arthur.
 
Angústia pelo pouco tempo, menos de 10 meses desde o aparecimento das primeiras manchas de óleo na litoral baiano, como pela incerteza do q ue de fato teria acontecido e como coibir novos desastres semelhantes.

“Não se sabe a origem do desastre e, consequentemente, se o problema fora finalizado ou se pode haver novo vazamento. Por exemplo, pode ter sido um navio afundado, uma tubulação rompida, ou algo que não tenha sido pontual, como estão especulando”, completa Arthur.

Ainda na nota divulgada dia 18 de julho, a Marinha pontuava que tem trabalhado, de forma cooperativa, com a Polícia Federal e a CPI do Óleo, no objetivo de esclarecer totalmente o desastre, e que reforçou o monitoramento dos navios que transitam nas águas jurisdicionais brasileiras e nas suas proximidades.

Quanto ao motivo para o reaparecimento das manchas, a Marinha explica que fatores meteorológicos, como alterações de ventos e marés, acabam por revolver sedimentos e podem contribuir com o ressurgimento do óleo nas praias, fragmentos não coletados no ano passado.

“O que achamos muito estranho nessa recorrência foi o aspecto do petróleo, estava mole, muito similar a uma mancha recém chegada. Imaginávamos que esse material, após seis meses à deriva nos oceanos, chegasse na costa com algas, plásticos aderidos ou qualquer outro lixo, mas não foi como ocorreu”.

Antes que pessoas tomem a iniciativa de limpar voluntariamente as praias, seja em mutirão ou monitoramento, é prudente atentar para a pandemia que todos estamos enfrentando, evitando aglomerações, em cumprimento às observações da Organização Mundial de Saúde (OMS), que recomenda evitar idas às praias.

“Caso identifique alguma mancha de óleo, a pessoa deve fazer um registro do local afetado utilizando o aplicativo Timestamp, que identifica data, hora e local, inclusive com as coordenadas de latitude e longitude, e depois acione os órgãos competentes: prefeitura da cidade, Inema, Ibama ou Limpurb (no caso de Salvador), e na Defesa Civil, nas demais praias do litoral norte”, orienta Arthur.

OS GUARDIÕES
O grupo nasceu em outubro de 2019, poucas horas antes do petróleo atingir as praias do litoral norte. Com uma conexão muito forte com a natureza, seja na vida pessoal ou profissional, Arthur Sehbe, que é especialista em soluções ambientais, ficou extremamente incomodado ao perceber o tamanho do problema que estava por vir e a baixa atuação governamental no sentido de combater os estragos.

Na manhã do dia 11, no ônibus a caminho do trabalho, por volta de 5 horas, Arthur acionou os amigos por mensagens, convidando quem pudesse participar de um mutirão no dia seguinte. “A grande maioria entendeu a urgência da demanda e antes das 12h, daquele mesmo dia, conseguimos organizar para o dia seguinte, 17 mutirões simultâneos em diferentes praias do litoral norte. Monitoramos de Santo Antônio, no município de Diogo, até o Porto da Barra, em Salvador, por dias seguidos, exaustivos, de esforço físico e cansaço mental. Uma das situações mais desesperadoras vivemos em Sítio do Conde, na região de Poças, um lugar que teve pouquíssima atuação. Dava para sentir o odor a quase 800 metros da praia, ainda no carro. A praia e a bancada de coral estavam muito impactados, tinha petróleo por todos os lados. Ficamos cerca de cinco horas trabalhando sem parar. Tiramos quatro big bag’s de petróleo da praia. Quando a maré começou a subir, percebemos muito petróleo se aproximando, sujando a praia novamente. Não conseguimos segurar a emoção e choramos muito, uma mistura de sentimentos inexplicáveis. Espero imensamente que não voltemos a esse estágio, mas quero aproveitar para parabenizar e agradecer a atuação de todas as pessoas que ajudaram os Guardiões do Litoral”.

Foto 01 - Novas manchas de óleo encontradas na praia de Vilas do Atlântico em julho/2020
Foto 02 - Arthur Sehbe, representante dos Guardiões do Litoral
Fotos 03, 04, 05 e 06 - Imagens de um dos últimos mutirões realizados pelos Guardiões do Litoral, na praia de Itacimirim, litoral norte, no dia 15/03/2020. Fotos: Mateus Morbeck

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