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OPINIÃO: ‘Especialistas’ de WhatsApp disseminam tratamentos sem comprovação científica

Alexandre Cunha - Em 29/07/2020

Com a pandemia, médicos que nunca trataram moléstias infecciosas se tornaram especialistas

Como disse Cobb, o personagem de Leonardo Di Caprio, em “A Origem” (Inception, 2010), a coisa mais infecciosa que existe não é um vírus ou um parasita, é uma ideia. Uma vez que se instala na mente, é quase impossível removê-la. Há algo ainda potencialmente mais perigoso: apaixonarse por ela.

A paixão por uma ideia faz com que as pessoas rejeitem de imediato qualquer evidência que contrarie o conceito básico pré-formulado e vejam as contestações como ataques pessoais ou movidas por motivos escusos. O apaixonado passa a empreender uma cruzada quixotesca contra moinhos de vento, não importa o quão obviamente fantasioso seja tudo. E sempre há vários Sanchos a acompanhá-lo.

Com a pandemia do Covid-19 estamos assistindo a cenas até pouco tempo inimagináveis. Centenas de médicos que nunca trataram moléstias infecciosas se tornaram especialistas, basicamente com conhecimentos adquiridos em grupos de WhatsApp onde são trocadas “experiências pessoais”. 

Contrariando as recomendações dos que estão acostumados há décadas a tratar doenças virais com acometimento pulmonar grave (Infectologistas, pneumologistas, intensivistas), aventuram-se a estabelecer protocolos para a Covid-19 sem embasamento na literatura científica.

Mesmo com todas as sociedades de especialidades médicas das áreas tendo se manifestado contra o uso das medicações fora de protocolos de pesquisa, estes seguem investindo contra os “inimigos” do tratamento e acusando os que agem com cautela e não fazem os pacientes de cobaias de “não quererem salvar vidas”.

A grande maioria dos árduos defensores dos kits de tratamento precoce propaga não apenas um efeito benéfico do tratamento, mas resultados surpreendentes.

As afirmações são feitas basicamente pela experiência pessoal dos participantes dos “grupos”, onde relatam seus “bons” resultados. Daí já se nota uma ingenuidade quase infantil: para uma doença em que 80% das pessoas vão evoluir de forma assintomática ou sintomática leve, 95% das pessoas não precisam hospitalização e menos de 1% vem a falecer, as chances são enormes de que o paciente melhore, não por causa do tratamento, mas apesar dele.

Tratei pessoalmente centenas de pessoas com dipirona e os resultados foram maravilhosos e nem por isso vou fazer lives divulgando seus fantásticos efeitos antivirais. Os defensores do tratamento precoce esquecem a importância de comparar os seus dados com os de pacientes não tratados.

O efeito de Dunnig Krugger é muito evidente neste grupo. Esse experimento social realizado na década de 90 demonstrou que quanto menos um indivíduo conhece sobre determinado assunto mais tem convicção sobre sua sapiência no ramo.

Nesta epidemia, assistimos a longos vídeos de uma médica ultrassonografista (importante especialidade de diagnóstico, mas que não trata doença alguma) falar com propriedade dos efeitos antivirais da Ivermectina e fazer recomendações de tratamento. Em alguns minutos, vemos informações bizarras como “na África não há Covid porque usam Ivermectina para tratar outras doenças” sem a menor comprovação de correlação causal nessa afirmação.

Depois do falecimento da cloroquina, derrotada por inúmeros estudos científicos demonstrando sua ineficácia como prevenção, em uso precoce ou tardio, há de se eleger um novo salvador da pátria.

A irracionalidade da abordagem do dito “tratamento precoce” se percebe quando a cada dia aparecem mais candidatos que se somam ao “coquetel”, numa manifestação de “não sabemos o que estamos fazendo, então vamos fazer um pouco de tudo”. Cloroquina, azitromicina, zinco, vitamina D, ivermectina, nitazoxanida, anticoagulante e corticóide. Algum desses deve funcionar, então administremos todos. Nenhuma preocupação com efeitos adversos.

São incontáveis os casos de medicamentos seguros e baratos que quando usados em algumas doenças especificas ou em combinação com outros com os quais não foram estudados causam grandes danos à saúde.

Esquecem-se os colegas que temos muito a fazer para os que realmente precisam, e não para a grande maioria que não precisa , que teria melhora espontânea e está sendo submetida a tratamentos sem eficácia comprovada.

Inúmeros são os casos de pacientes que tomaram os “kits de tratamento precoce” desde o primeiro dia de doença e evoluíram gravemente. Estes são observados pelos profissionais que estão realmente na linha de frente, atendendo, presencialmente, pacientes de Covid-19. Os que atendem pacientes leves e assintomáticos, por vídeo, ou mensagem, do conforto de suas casas, não veem esses casos.

Alguém em sã consciência moraria em um prédio construído por um engenheiro químico, que acha que sabe construir um prédio porque é engenheiro tal qual o civil? Alguém acometido por uma doença cardíaca seguiria os conselhos de um grupo formado por infectologistas, dermatologistas, cirurgiões, e ofalmologistas para tratar sua doença se esses conselhos fossem contra o que recomendam os cardiologistas e as sociedades de cardiologia?

Esse é o universo distópico em que vivemos atualmente. Especialistas formados pelo WhatsApp, disseminando tratamentos sem a mínima comprovação cientifica para pacientes desesperados. Mais um triste efeito colateral da pandemia. Nossa única esperança é que um bom Sancho tente convencer os Quixotes de que são moinhos de vento e não dragões. Mas se Cobb estiver certo, esse esforço será inútil.

Alexandre Cunha é médico infectologista do Hospital Sírio Libanês (SP) e do Hospital Brasília (DF), e consultor médico do Sabin Medicina Diagnóstica.

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