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A permanência das escolas fechadas pode trazer consequências para além do aprendizado

Thiara Reges - Em 01/08/2021

A preocupação com o tempo de fechamento das escolas e o período prolongado sem aulas para crianças e adolescentes é real e traz debates que ultrapassam a questão do aprendizado. A sociabilidade, o aumento das diferenças sociais e a insegurança alimentar, estão entre as maiores preocupações de órgãos de proteção das crianças e adolescentes, bem como de profissionais que lidam diretamente com o desenvolvimento infantil e defendem a reabertura das escolas o quanto antes.

No que tange ao aumento nas diferenças sociais, por exemplo, a psicóloga Regina Gama destaca que se as disparidades entre o aprendizado das escolas privadas e públicas já eram notórias, durante a pandemia, elas estão sendo potencializadas. “Em termos de Lauro de Freitas, que liberou primeiro as escolas particulares, já está havendo uma grande defasagem, pois as escolas públicas, por falta de estrutura, demoraram muito mais tempo a se adaptar a esse formato online. Sem dúvida isso vai provocar um impacto muito grande no social e no aprendizado dessas crianças. Muitas, inclusive, não tiveram condições de assistir às aulas durante todo esse período. Então vai haver um esforço maior para que essas crianças tentem acompanhar o ritmo e não haja perdas, mas a consequência de tudo isso só veremos mais adiante”, frisa.

Segundo relatório divulgado pelo Unicef, a alfabetização foi a etapa de ensino mais afetada no Brasil. Dados do Censo 2019, apontam que 4 a cada 5 crianças e adolescentes estavam matriculados em escolas públicas. Na pandemia, cerca de 5 milhões de crianças ficaram sem acesso à escola, e destes, 40% eram crianças de 6 a 10 anos de idade. “São crianças dos anos iniciais do Ensino Fundamental, e isso pode acarretar em um problema de uma geração inteira. São anos cruciais para o aprendizado de uma criança. É o ano da alfabetização que fica incompleto, podendo levar até a um abandono escolar futuro”, complementa a pediatra Priscila Gonçalves, especializada em Neurologia Infantil.

A profissional destaca ainda, que para além do aprendizado, o fechamento das escolas afeta também questões como proteção e cuidado, sobretudo das crianças mais pobres. “O Unicef tem se manifestado com frequência a favor da reabertura das escolas, desde dezembro de 2020, demonstrando uma situação muito crítica em relação a crianças e adolescentes, principalmente das famílias mais pobres. A pandemia tem atingido este público de maneira desproporcional. Os mais pobres têm sofrido mais, pois também têm que lidar com a queda da renda familiar e insegurança alimentar. Esse afastamento da escola terá um impacto duradouro na vida de meninos e meninas, também no que compete à saúde mental e à proteção, pois eram os educadores que acolhiam essas crianças quando a casa ou a rua os oprimia”, destaca.

Não podemos esquecer dos impactos relacionados à saúde física e mental. A necessidade de isolamento, que afastou crianças das brincadeiras ao ar livre, favorece doenças como a obesidade infantil, que já era uma preocupação muito antes da pandemia. Mas talvez o maior comprometimento, de forma global, seja sobre a saúde mental.

‘’Sabemos que o estresse emocional é um fator de risco para transtornos mentais, que podem aparecer agora ou anos depois quando acabar a pandemia. E o grande problema é a forma como isso chega para as crianças, através das informações e emoções de pais e/ou adultos com os quais convivem intensamente, e também das mudanças de rotina e do ambiente ao longo do tempo. E é importante que se diga que toda a faixa etária pediátrica, dos pequenos até os adolescentes, é comprometida com esse estresse emocional. Nas crianças, os transtornos podem aparecer através das emoções, expressando o medo e insegurança, ou até irritabilidade, ansiedade, insônia, tendência de desenvolvimento de episódios depressivos, aumentando o risco de suicídios”, reforça Priscila.

Em linhas gerais, ambas concordam que todo este período da pandemia e isolamento social reforçou ainda mais o papel do ambiente escolar para o desenvolvimento e socialização de crianças e adolescentes. “A escola é de grande importância na formação da criança, na questão da socialização e no entendimento de seguir as regras. As crianças, desde o início, vão aprender a dividir e cooperar. Já para o adolescente é a fase que começa a afetividade e a escola ajuda nessa formação de identidade. No momento de retorno às aulas, será mais fácil a retomada com as crianças, pois são desprovidas de preconceitos. Além disso, o que já foi possível observar em locais que as aulas híbridas retornaram a mais tempo, é que as crianças ficaram mais tranquilas na escola, socializaram e gastaram energia. Já para os adolescentes, o grande marco desse período são as relações online, e a orientação dos pais será imprescindível”, destaca Regina Gama.

Apesar de não ser possível ainda mensurar os impactos da pandemia na educação do Brasil, Priscila Gonçalves acredita que o tema requer um estudo aprofundado, comparando os períodos pré e pós pandemia, além de um olhar atento à diferença entre classes e raças. “O Unicef lançou um relatório esse ano que é assustador, com um panorama da exclusão escolar antes e durante a pandemia, e nele mostra que o Brasil pode regredir até duas décadas no acesso de meninos e meninas à educação. Os números são alarmantes e trazem um alerta imediato: é essencial reverter isso agora e correr atrás dessas crianças e adolescentes para que eles estejam na escola”, concluiu Regina.

Foto de capa: Agencia Senado

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