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Projeto Eco Cultural Lagoa da Paz

Tássio Cardoso (texto e fotos) - Em 01/11/2021

Para além do circuito já afamado “Guarajuba-Imbassaí-Praia do Forte-Costa do Sauipe” há, na Costa dos Coqueiros, uma pluridiversidade de formas de fazer turismo. Podemos dizer que existe uma parte desta zona turística mais plural, singular e ainda pouco conhecida.

Relato aqui minha experiência de passar dois dias na comunidade de Cachoeirinha, zona rural de Barra de Pojuca, município de Camaçari.

Sendo morador de Lauro de Freitas e de Barra do Itariri, no município de Conde, e servidor público da prefeitura de Mata de São João por três anos, posso afirmar que conheço bem o Litoral Norte. Visitei com certa frequência as belas praias de Vilas do Atlântico, Guarajuba, Imbassaí, Praia do Forte, Itacimirim, Baixios, Costa do Sauipe, dentre outras, ora desenvolvendo aulas de campo como professor, ora praticando cicloturismo ou simplesmente em momentos de lazer com a família e amigos.

Mas depois que comecei a estudar e vivenciar novas formas de turismo, como, por exemplo, o de base comunitária, busquei priorizar (sem desprezar os sítios turísticos convencionais) outras localidades. Foi aí que passei a desfrutar mais da rica cultura ancestral que existe na Costa dos Coqueiros.

Na perspectiva do Turismo de Base Comunitária (TBC), visitei o Quilombo do Quingoma (Lauro de Freitas), Quilombo de Cordoaria e Arembepe (Camaçari), Quilombo e o Portal Tupinambá (Massarandupió), o Quilombo de Pedra Grande (Conde) e vários outros sítios que ainda conservam um modo de vida tradicional e realizam um turismo protagonizado pela própria comunidade, ainda que com apoio externo (geralmente universidades, ONG´s, etc.).

Além da autogestão social, um outro aspecto do Turismo de Base Comunitária é que o turista faz uma profunda imersão na comunidade, ‘aprendendo a aprender’ a partir do modo de vida tradicional da comunidade que o acolheu. Trata-se de um turismo solidário, regenerativo, de afeto.

Em setembro, tive uma outra imersão na cultura tradicional pulsante da Costa dos Coqueiros. Eu e minha esposa (Miliane Vieira) ficamos hospedados no Espaço Comunitário e de Terapias Holísticas Hamanihah, localizado na zona rural de Barra de Pojuca. Hamanihah é um termo judaico que significa “gira sol”. Assim, Lene Goes, proprietária do espaço, era chamada, carinhosamente, pelo seu marido judeu.

Lene é uma educadora popular e terapeuta comunitária integrativa que desde 2005 desenvolve, naquela comunidade, diversas oficinas formativas, tendo como objetivo primordial despertar nas famílias locais o empreendedorismo social, o sentimento de pertença e a valorização da cultura e da biodiversidade locais.

Neste trabalho voluntário, diversas oficinas e rodas com mulheres, crianças e jovens foram realizadas, a saber: artesanato de fuxico e vassoura de palha, sopa integrativa, oficina de Abayomi (construção de bonecas negras), xamanismo, reiki e demais terapias integrativas. Sonhadora, espiritualista e com forte engajamento social, Lene idealizou, junto com a comunidade, a trilha eco cultural da Lagoa da Paz e projeta, num futuro próximo, a construção de uma cozinha comunitária.

Tive a oportunidade de renovar minhas energias e experienciar minha ancestralidade fazendo a trilha da Lagoa da Paz na condução de um outro guardião da comunidade: Aurino Teixeira, conhecido como Pelé, jovem negro oriundo de um povoado remanescente de quilombo (Muritiba) e que chegou em Barra de Pojuca com a missão de descobrir sua história e mudar a realidade local.

Foi assim que organizou a primeira caminhada da consciência negra na localidade e em Cachoerinha mobilizou a comunidade para transformar um brejo cheio de lama, lixo e junco, na principal fonte de lazer do local: a Lagoa da Paz.

Mas não é só a consciência crítica e o protagonismo social de Pelé que impressionam, mas também seu talento artístico. Compositor e cantor talentoso, fã ardente de Margareth Menezes, transformou sua casa no Centro Cultural Aurino Teixeira Pelé, onde mantém a tradição do samba. Entre a música e o ativismo social, o jovem sonha alto: quer se formar em Comunicação, criar uma TV e rádio comunitárias e ser um artista mundialmente conhecido.

Acolhedor e muito didático, Pelé, durante a trilha da Lagoa da Paz, falou sobre as tradições locais, o poder medicinal das plantas nativas e a parceria frutífera com a Rede Emunde, que oferece constantemente apoio técnico ao projeto.

Além de ter possibilitado esta profunda e rica experiência, ele também nos levou para conhecer o grupo de samba de roda Espermacete, coordenado por Nilde Bomfim (que também desenvolve oficinas de trançado e samba na comunidade), o Museu Afro-brasileiro Pai Procópio de Ongunjá e o restaurante comunitário, onde foi possível comer um delicioso prato de pitú pescado no rio Pojuca.

Durante minha rápida, mas intensa hospedagem em Cachoeirinha, um ponto especial me chamou atenção: assistir um grupo de matriarcas, por volta das 19h cuidando do jardim da igreja local. Este protagonismo comunitário inspirador é baseado num profundo sentimento de admiração, respeito e amizade entre as lideranças locais, como Pelé, Zeferina, Nildes e Lene. Estas lutam, incansavelmente, pela construção de um povoado onde o cidadão possa ter sua dignidade reconstruída e autoestima elevada. É neste ideário que se constrói um turismo de fato comunitário, comprometido com a qualidade de vida dos moradores e com a valorização do patrimônio histórico-cultural-ambiental.

Depois desta experiência, percebi que ainda tenho muito que conhecer sobre a cultura e a história da Costa do Coqueiros.

Se você se sentiu mobilizado com este relato de experiência e já se vacinou com a segunda dose, não perca tempo! Agende um passeio na Trilha Lagoa da Paz (Pelé, tel.: 71 9626-7780; Lene, tel.: 71 9395-7816 ) e tenha uma experiência memorável. Importante: todos os protocolos sanitários estão sendo rigorosamente seguidos.
 

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